quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Resenha - Sonhos Partidos

Sonhos Partidos
M. O. Walsh
Livro cedido pela editora
Número de páginas: 256
Editora: Intrínseca
Classificação: 
Sinopse: Uma narrativa sobre os mais universais dos sentimentos e sobre como a memória pode criar e preencher as lacunas.
Baton Rouge, capital do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, é uma cidade conhecida por seus churrascos no jardim, tardes quentes de verão, barris de cerveja gelada e muitos fãs de futebol americano. Mas no verão de 1989, quando Lindy Simpson, uma das garotas mais bonitas do bairro e estrela das pistas de corrida, é estuprada perto de casa, fica claro que os subúrbios bucólicos de Baton Rouge também têm um lado obscuro.
Para uma vizinhança tão pequena, os suspeitos do crime são muitos. Entre eles o narrador da história, um adolescente obcecado por Lindy que mora na casa em frente à da garota. E é por meio de suas lembranças que somos levados a entender como términos de relacionamentos, culpa e amor podem transformar a vida de maneiras irreversíveis.
Combinando o encantamento da infância com a história de um crime violento, em uma prosa perturbadoramente bela, M. O. Walsh analisa os momentos do passado que afetam de forma mais profunda a vida adulta. Uma estreia excepcional que combina suspense com reflexões filosóficas sobre memória, humanidade e verdade.
Sim, é isso mesmo que você está vendo, dei uma estrela para o livro. Isso quer dizer que essa será uma daquelas resenhas difíceis de escrever, por que eu realmente não gostei dessa obra. Desde o começo quero deixar bem claro que essa é minha opinião, e que você e eu podemos pensar diferente. Ou seja, mesmo que eu não tenha curtido a narrativa pode ser que para ti seja uma boa leitura. Mas não vou ficar tentando me justificar, vamos logo a resenha! 
Nesse livro acompanhamos as lembranças de um homem acerca de sua vida em Beaton Rouge, a cidade onde nasceu e foi criado. Algo muito marcante acontece na vizinhança do nosso narrador. Uma menina chamada Lindy, que é bonita, inteligente e uma esportista nata é estuprada em meio a vizinhança, e ninguém tem conhecimento da pessoa que cometeu o crime, nem mesmo Lindy consegue dizer quem foi o estuprador. E é em meio a esse drama que se desenvolve essa narrativa. Em um bairro pacifico, cheio de pessoas "de bem" onde não se espera que nada de ruim aconteça, algo tão horrível vem a tona. Ao longo da narrativa diferentes suspeitos são apresentados e autor tenta a todo momento nos deixar confusos apresentando alguns possíveis culpados e descartando outros.
A narrativa é contada em forma de confissão, onde o narrador vai transbordando nas páginas toda a sua história e as suas lembranças. Já no inicio do livro nós descobrimos que ele nutre uma intensa "paixão" pela personagem vindo a integrar o hall de suspeitos do crime. Fica claro que nosso autor não é muito confiável, já que ele pode estar manipulando os acontecimentos.


Eu já sabia que o livro não seria leve, eu esperava algo cru, mas não esperava o que o livro me trouxe. Pelo ato do estupro em si ser algo tão horrível e ser um grande gatilho emocional para muitas mulheres (Acredito que esse seja um medo em comum que todas nutrimos no nosso interior.) penso que esse tema não deva ser tratado de maneira leviana. O que mais me incomodou em toda a narrativa foi um personagem masculino falando sobre como o estupro da menina Lindy afetou a vida dele. O narrador nos conta sobre a sua paixão, mas só fica claro que essa "paixão" beira a loucura e a obsessão. Todos os personagens masculinos do livro são nojentos, todos eles tratam Lindy como um objeto, até mesmo nosso narrador apaixonado. Nesse livro Lindy não é uma pessoa, alguém que sofreu um trauma, é uma mulher a ser conquistada, uma coisa a ser consertada, um estudo a ser analisado. E isso não ocorre apenas com Lindy mas com todas as personagens femininas do livro, todas elas servem de alegoria para que os personagens masculinos passem por uma metamorfose. M.O. Walsh em sua narrativa usa diversos artifícios e frases que sugestionam que o seu pensamento acerca das atitudes masculinas tem justificativa apenas na masculinidade em si. É aquela coisa de "garotos agem assim por que são garotos" sabe? E isso me deixou extremamente incomodada. Li algumas frases para amigas feministas e não foi só em mim que elas causaram incômodo.
"Afinal que tipo de homem poderia ficar com uma garota que deixava um velho como ele toca-la?"
Fora a conduta duvidosa do personagem narrador, e do próprio autor, algumas coisas me incomodaram na maneira como o livro foi escrito. Esta é uma obra com grandes firulas, que não vai direto ao ponto, e isso me incomodou um pouco. Temos longos capítulos onde o autor discorre sobre algum assunto que não possui grande relevância para a história final. Ele passa o livro inteiro tentando convencer o leitor que Baton Rouge não é um lugar tão ruim assim, que os resto do país julga de maneira errada a vida deles ali, mas ao mesmo tempo só apresenta fatos que reforçam o julgamento. Poxa amigo, assim não dá para te defender né?


A história tinha tudo para ser mas não foi. O assunto é algo que chama atenção, a capa é magnifica, tanto a original quanto a nacional. Mas ao longo das páginas me vi sofrendo para terminar. Além de me sentir incomodada com a visão de mundo apresentada no livro, não consegui me prender aos personagens pois odiava todos. A unica que se escapou do ódio foi Lindy, pois dela senti pena, pois ela é vitima de abuso todos os dias, mesmo após ser vitima do maior abuso a que uma mulher pode ser submetida ela continua sendo alvo de "abusos menores", pois nela vi todas as meninas e mulheres que sofreram abuso, pois nela me vi, e sofri junto. Eu realmente espero que ninguém se sinta ofendido por essa resenha pois ela é a expressão daquilo que vi no livro, não é minha intenção ser mal educada ou destratar o autor. Apenas quero pontuar que o machismo é algo que está intrínseco na nossa vivencia e que as vezes não percebemos que a desconstrução é necessária. Diria que Walsh e eu possuímos ideologias diferentes, mas gostaria que não.

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2 comentários:

  1. Acho que essa foi uma das melhores resenhas que já li esse ano! Só as suas palavras já deram um embrulho no estômago e sinceramente, acho que esse leitura não vai dar pra mim. Aparentemente, o autor pegou uma premissa muito boa, e por conta do machismo acabou não sabendo desenvolver a história. Acho que a personagem central deveria ser a Lindy, e imagino que se ela fosse a narradora, o livro iria fluir melhor. Mas, acho muito difícil que o autor conseguisse se posicionar com uma narração feminina, por conta de todas as falhas que foram elencadas por você.

    Parabéns pela resenha!

    Beijos,
    Bia.

    www.nasuaestanteblog.blogspot.com | @NaSuaEstante_

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  2. Poxa, eu tava doida para ler esse livro porque ele tem abuso como tema principal mas depois da resenha acho melhor eu procurar um outro livro, né? A gente já sofre tanto com medo dessas coisas no dia a dia que não vale a pena abrir um livro e ver que é tratado como frescurinha ou que a culpa foi a da menina e tals...

    Ps: adorei a resenha! Tava doida para ler alguma resenha sobre esse livro. :D

    Beijos!
    http://www.prateleiracolorida.com.br

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